Division Bell – PULSE

este video mostra uma coisa que não aparece no P.U.L.S.E, registro oficial da turnê de 1994 lançada em laser disc, cd e hoje dvd: o david gilmour trocando de guitarra com um roadie.

no filme essas TRIVIALIDADES não passam pois interessa à filmagem e à banda afirmar a apresentação, e cada música, como um evento sobrenatural. pra isso não basta o video no telão, os efeitos e gruas: simplesmente ninguém dos bastidores, ninguém mais humano, pôde aparecer.

e não aparecerem roadies é até normal, mas o filme chega ao ponto de não mostrar um rosto sequer da platéia, que fica um vultão coletivo escuro, de costas pra gente e distante, eventualmente iluminado por refletores vindos do palco e do teto. não temos o rosto de ninguém fora os da banda, e ver esses videos caseiros (abaixo) que trazem cara e voz de pessoas comuns presentes aos shows, pra mim, que fui praticamente educado naquele outro registro, é algo especial. as pessoas do palco (gilmour, wright e cia) são aditivadas por, além de luz, música e toda uma exclusividade, overdubs de estúdio que vieram a incrementar a situação, que ficou sutilmente virtual, fantasmática e maravilhosa.

“poles apart” é uma das melhores músicas do division bell e não entrou no PULSE, que que foi em primeiro lugar a turnê de lançamento desse disco. gosto muito da divisão da música em períodos claros e equilibradamente diferentes. a música passa muito bem de uma idéia pra outra, está tudo muito vivo e com uma tranquilidade que é nova nesse momento.

a trajetória da banda rumo ao division bell, aliás, é uma trajetória de crescente tranquilidade e espacialização branda (gilmour e wright + um baterista discreto), e do division bell rumo ao PULSE é uma trajetória de eliminação de timidez, ainda.  o PULSE é talvez o momento mais alto da banda, e que por ser “ao vivo” muitas vezes é omitido das discografias comentadas.

no estúdio o gilmour fazia tipos, a voz atuava, e essa não era tão a dele. a dele é a voz alta e livre das estratégias de timbre, com o volume necessário para aparecer entre os outros instrumentos  e apenas isso – a voz de um homem em situação épica e a se dignificar com o misto de sacrifício e espontaneidade. o gilmour ama o bob dylan mas acabou exercitando a parte vocal disso só nos palcos. e quanto aos instrumentos é aquilo: no ao vivo tem fluência e no estúdio exalam o escolher.

no PULSE eles estão mais inspirados, talvez mais felizes, e mais claramente inspirado está o gilmour. ele vai solando brilhantemente enquanto no disco division bell solou um tanto timidamente.  parece que ele foi CONHECENDO as músicas de fato, pra valer, ganhando intimidade com elas, ao longo da turnê e não da composição e produção do álbum. você pode comparar as interpretações e solos dele nas versões de estúdio e do PULSE abaixo:

“keep talking” – solo final sublime no P.U.L.S.E e deveras tímido na original do division bell

“coming back to life” – voz “atuando” demais no estúdio e cantando no ao vivo.

a fluência generalizada que visitou mais o show do que as empreitadas de overdubs e escolhas da gravação é muito clara e especial na “take it back”. uma das melhores músicas da banda, e das mais dylanianas.

nunca foi uma banda que gostasse de estúdios pra valer, talvez, como eles mesmos dizem (durante a gravação o Wish You Were Here ficavam jogando squash e com medo de gravar, com medo do sucesso do Dark Side, do Syd Barret que foi lá assustar e que era um fantasma em todos os momentos decisivos), e é essa inclinação que no fim ataca os que querem o Pink Floyd como a banda do “o quão mais inventiva e doidera melhor”, e não sabem bem lidar com ela a partir dos anos 90.

não é uma banda que subvberta o aparato de dentro (conceitos waters), e sim que o dignifica com Presença, esta que requer momentos de ausência e indiferença ao progresso. o gilmour é um blueseiro, e um blueseiro é um tipo de equivalente do dorival caymmi. a banda, cada vez mais depois do waters, e mesmo depois do syd, foi se limitando a escolher ser boa acompanhante das tecnologias (violão), que se confundem com a própria vida, e desbravadora de uma musicalidade a se descobrir . essa vocação culminaria no poder gravar o division bell sem pressa em casa, em 1993, e fazer uma turnê muito bem servida um ano depois, já quase dez anos depois da saída do waters e com as cabeças mais descansadas.

a ênfase foi ficando numa tranquilidade e aí moram tramas e dramas da banda em toda a sua história, também. primeiro porque a tranquilidade de ricões tem mesmo o risco da alienaçao. segundo porque o fantasma do syd barrett realmente sondou o tempo todo e houve culpa, mais ou menos presente em diversos momentos, e com esta culpa um certo silêncio, e aí fica mais ou menos assim: a tranquilidade sonora podendo “representar” a fuga de um problema, ou um recair alienado sobre a sensibilidade suave que sobrou na banda milionária e sem o seu fundador. O que fazer? Ah, não sei, deixa com o David e com o Roger. quando a banda soou muito branda e tranquila, talvez tenha soado em seu melhor, mas a superfície calma foi e é confundida com “dad rock” e monotonia, desde “shine on you crazy diamond” em 1974, música que inclusive foi muito detonada por um crítico famoso na época, para trauma geral (tinha um fundo de verdade o que ele dizia).

descansos aconteceram, de fato, talvez a banda tenha muito mais momentos medianos do que este texto quer acreditar. mas nada nunca eliminou a possibilidade do milagre. e nunca foi, mesmo com o roger e o syd ali, uma banda avessa à preguiça criadora.

e nada disso delimita o PULSE, o explica, mas certamente aí tem.

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s