If I was a folkstar, do The Avalanches

A fala, a escrita e a criação que tenta em demasia entender e alcançar a graça tende a fazê-la escapar.

Mas bons textos sobre a graça, como os do Louis Lavelle, aceitam-na como algo, sim, identificável: ela seria, na vida e nas criações, algo dos contrastes que aparecem como harmonia; dos obstáculos que, por exemplo numa obra artística, se colocam como facilitadores da união. Ela é paradoxal na medida em que é paradoxal um homem inventar, com matéria limitada, a plenitude da existência. E a graça são coisas das quais o album Wildflower, do trio australiano The Avalanches, se mostra um bom concentrado.

A música é a If I was a folkstar, que tem participação do Chaz Bundick (Toro y moi).

https://player.vimeo.com/video/173257396

Um sample muito arejado, um dos mais arejados de um disco que, por sua vez, é todo baseado em samples muito arejados. Temos sons que se repetem, apresentados em versões ora altas, ora baixas, ora abafadas ora estridentes, um recurso de variação fácil e usado com maestria pelo trio Robbie Chater, Tony Di Blasi e James Dela Cruz. Certamente o mistério está nessa maestria, que é tanto habilidade compositiva fruto de experiência, habilidade também manual, quanto vontade de aceitação, um tipo de não-vontade participativa do ouvinte criador.

Num momento brilhante do trabalho com os samples, surgem teclas que começam um crescendo, aos 0:52. A sequência de notas forma um acorde e evolui em direção a um segundo acorde, que no entanto não acontece. A ramificação melódica não vai até as alturas esperadas, alturas que formariam uma cama perfeita para a voz do convidado Chaz Bundick. A melodia fica no meio do caminho, deixando a base um pouco imatura, um sample incompleto demais para os “padrões” de base Toro y Moi. Sua voz (a de Chaz/Toro) assim flutua e fica mais sem jeito, chamada para uma festa que não é sua. Os versos que Chaz canta parecem querer uma base mais cheia, feita-para-a-voz, mas é justamente desse desencontro que surge algo ainda mais interessante, ou mais inesperadamente bom. Um contraste (aparição de Toro sobre base Avalanchezada) dentro de outro contraste (fluidez da cama de acordes x interrupção da cama), perto e dentro ainda de outros contrastes inerentes à dança de volumes normal a uma música.

Os pedaços da música, mesmo podendo ser decompostos nessa análise, não são objetos tão separáveis, e sim interdependentes numa espécie de caleidoscópio. Não parece que sejam exatamenente justapostos, numa música que desde o seu início já vai desconhecendo o tempo, suprimindo-o e superando-o. Há muitos outros contrastes e outros eventos; a música do Avalanches soa como uma explosão de pequenas idéias banais, fundamentais e engraçadas. Outro contraste presente nessas músicas é o que podemos traduzir como “origem conhecida x origem desconhecida”. Afinal, o que no Wildflower provém de instrumentos tocados pelo trio e o que provem de toca-discos? Qual é a musicalidade deles? Ela está lá mas em certo lugar nenhum, o que é um dos mistérios mais interessantes e comuns na música eletrônica e toca a própria definição de Graça segundo o Louis Lavelle:

Graça é um movimento em comunhão com outro movimento (o qual se oferece a si) e que por um instante esconde essa comunhão.

O The Avalanches lança este disco 16 anos depois do seu primeiro e único lançamento até então, oSince I Left You, do ano 2000. Intervalos assim, trazendo a marca de suas vidas em dois tempos, atualizando antigas histórias em novas aparições e músicas, também geram outros contrastes, encontros, que serão ao mesmo tempo e de diversas formas biográficos e estéticos.

valeabraaoofic@gmail.com

mariocascardo@gmail.com

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